Setor de autopeças aposta em tecnologia digital – por William Boston – Valor Econômico

As montadoras alemãs BMW AG, Daimler AG e Volkswagen AG estão sendo ameaçadas pelas ambições do Google Inc. e da Apple Inc. no setor de automóveis. Mas os fornecedores de componentes automotivos da Alemanha veem grandes perspectivas no crescente negócio de carros conectados.

Empresas como Bosch GmbH, Continental AG e ZF Friedrichshafen AG, que estão virando megafornecedores capazes de alavancar novas tecnologias para qualquer parte de um veículo, começaram a trabalhar em estreita colaboração com as gigantes americanas da tecnologia.

Essa mudança ficará evidente no Salão do Automóvel de Frankfurt, que começa nesta quinta­feira na cidade alemã.

As montadoras alemãs e seus fornecedores locais sabem que a tecnologia de controle de veículos ­ a tecnologia digital ­ é a chave para ter sucesso no setor automobilístico do futuro. Veículos que dispensam motoristas, carros conectados e sistemas avançados de segurança dependem da criação de aparelhos e engrenagens inteligentes, com a ajuda de software.

Até o Vale do Silício reconhece que os alemães estão na pole position nessa área.

“A Alemanha pode liderar o mundo nesse [processo]”, disse recentemente o presidente executivo do conselho do Google, Eric Schmidt. “Estamos trabalhando com uma infraestrutura completa aqui na Alemanha.”

Em agosto, as três maiores fabricantes de carros de luxo da Alemanha ­ Audi AG, BMW e Daimler ­ concordaram em pagar cerca de 2,5 bilhões de euros (US$ 2,83 bilhões) para adquirir a divisão de mapeamento digital da Nokia Corp., o Nokia Here, para impedir que concorrentes da indústria de tecnologia assumissem o controle de uma tecnologia essencial para o futuro dos carros que se autodirigem.

Agora, fabricantes de autopeças da Alemanha estão considerando se unir às montadoras do país para investir no Here.

“Temos que esperar o fim do ano e então vamos ver”, disse Elmar Degenhard, diretor­presidente da Continental AG, em entrevista ao The Wall Street Journal.

A ZF Friedrichshafen fechou um dos maiores acordos recentes de tecnologia automotiva, mostrando como os fornecedores alemães estão agindo agressivamente para defender sua posição de liderança como fabricantes dos principais componentes e sistemas dos automóveis.

No fim do ano passado, Stefan Sommer, diretor­presidente da ZF, anunciou um negócio de US$ 12 bilhões para comprar a fabricante americana de autopeças TRW Automotive, especializada em sistemas de freios e segurança. Quando o negócio foi fechado, em maio, ele ainda estava cruzando os dedos para que a enorme aquisição financiada por meio de dívida desse retorno.

O “risco calculado” de Sommer agora parece visionário. Na semana passada, dez das principais montadoras concordaram em tornar sistemas de freios automáticos um recurso padrão de segurança nos carros novos ­ assim como os cintos de segurança e os airbags. Por meio do uso de câmeras, sensores de radar e software, esses sistemas de freios podem parar um carro automaticamente se o motorista não responder a tempo de evitar uma colisão com um objeto.

“Nós vimos que estávamos bem posicionados em tração e transmissão, mas não tínhamos tecnologia em sistemas de assistência ao motorista e segurança automotiva”, disse Sommer em uma entrevista ao WSJ. “A TRW nos complementa.”

Ao combinar as tecnologias da ZF e da TRW, a ZF desenvolveu um pequeno veículo autônomo movido a eletricidade e batizado de Veículo Urbano Avançado. Sommer disse que a ZF pode comercializar os sistemas básicos do carro como um kit, uma espécie de carro de Lego. A ZF mostrará a mais recente versão do modelo em Frankfurt.

“O futuro da condução autônoma é mais propenso a acontecer em um ambiente urbano que nas rodovias alemãs”, disse ele. “Essa é a razão de acreditarmos que o futuro da direção autônoma é o carro pequeno.”

O setor automobilístico deve investir cerca de US$ 12 bilhões este ano em sensores de radar, câmeras, software e outras tecnologias avançadas de assistência ao motorista que permitem que os carros mudem sozinhos de pista, estacionem e evitem colisões, segundo a IHS Automotive.

Os alemães estão adotando esta tecnologia agressivamente porque têm muito a perder. Um em cada sete empregos na Alemanha está ligado ao setor automobilístico. A Bosch é a maior fornecedora de autopeças por vendas do mundo, seguida pela Magna International Inc., ZF e Continental, e Denso Corp. Por isso, os alemães estão tão ansiosos para manter a dianteira num momento em que empresas de tecnologia, como o serviço de compartilhamento de caronas Uber Technologies Inc. e a startup israelense Mobileye NV, ameaçam entrar em seu negócio.

As montadoras receiam revelar segredos vitais e desvalorizar suas marcas ao colaborar com o Google e a Apple. Já os fornedores de componentes, cujas marcas não são visíveis aos motoristas, podem estar em melhor posição para se unir ao Vale do Silício.

“Se nossos clientes são montadoras de carros de luxo na Alemanha, marcas populares da China ou a Apple, nosso negócio não muda”, disse Sommer. “Para as montadoras é mais perigoso.”